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Ataques a jornalistas sobem 23% e têm família de Bolsonaro em 42% dos casos, aponta pesquisa

Perfil dos alvos mostra que homens foram 62,6% das vítimas e mulheres, 43,5% – Foto: Divulgação

Ataques a jornalistas no Brasil cresceram 23% em 2022 em relação a 2021, segundo levantamento da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). A entidade identificou o envolvimento de membros da família Bolsonaro em 41,6% dos casos e registrou aumento no número de episódios considerados graves.

O documento, divulgado na noite desta quarta-feira, 29, durante debate em São Paulo sobre ameaças à liberdade de imprensa, registra agressões verbais e físicas feitas diretamente contra profissionais e também os chamados discursos estigmatizantes, que buscam desacreditar e perseguir jornalismo em geral.

Em 2022, ano marcado pela acirrada disputa presidencial entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foram 557 ataques a jornalistas, meios de comunicação e imprensa em geral, segundo a Abraji. No ano anterior, eram 453.

Em 2019, primeiro ano da pesquisa, foram computados 130 episódios. A entidade diz que 2022 foi o ano mais violento para jornalistas e comunicadores brasileiros desde o início do monitoramento.

Os episódios mais frequentes no último ano (61,2% do total) foram os que envolveram discursos estigmatizantes. A média era de um ataque por dia para desmoralizar os jornalistas e a imprensa. Em 75,7% das situações, os agressores eram agentes do Estado, como políticos e funcionários públicos.

A segunda categoria com mais casos (31,2%) foi a agressão e ataques, que inclui violações físicas, destruição de equipamentos, ameaças e hostilidades. A Abraji considerou preocupante o aumento de 102,3% desse tipo de ocorrência em relação a 2021.

As ações mais graves tiveram seu ápice após o segundo turno das eleições, coincidindo com as manifestações de apoiadores de Bolsonaro contra a vitória de Lula e a organização de campos golpistas questionando o resultado da eleição.

Ao mesmo tempo, houve diminuição do número de casos mais leves, agrupados na classificação de discursos estigmatizantes. A associação avaliou que, com o resultado da eleição, a violência que era verbal passou a ser física. A cobertura eleitoral esteve ligada a 31,6% do total de ataques no ano.

O monitoramento também mostrou que 41,6% de todos os ataques em 2022 foram perpetrados pelo então presidente Jair Bolsonaro e seus três filhos com mandatos eleitos – Flávio, senador (PL-RJ), Eduardo, deputado federal (PL-SP), e Carlos, vereador (Republicanos-RJ).

A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa de Bolsonaro para comentar os dados da reportagem.

A maior parte das ações realizadas pela família envolveu discursos de intimidação e ocorreram nas redes sociais, com pregações de boicote à imprensa e insinuações de que os veículos espalhavam fake news.

Jair Bolsonaro também liderou o ranking de ataques perpetrados por candidatos à presidência. Dos 51 casos registrados, o então mandatário esteve envolvido em 50,1%. Em seguida, vêm os postulantes Sofia Manzano (PCB), aparecendo em 15,7% dos episódios, e Padre Kelmon (PTB), em 9,8%.

Segundo a Abraji, não foram identificados discursos estigmatizantes publicados durante o período de campanha nos perfis de Lula, Simone Tebet (MDB) e José Maria Eymael (DC).

O perfil dos alvos mostra que os homens foram 62,6% das vítimas e as mulheres, 43,5%. Contra eles, a ofensiva na maioria das vezes inclui críticas baseadas na aparência e na sexualidade.

O monitoramento também faz uma análise específica da violência de gênero sofrida por jornalistas. Foram 145 episódios desse tipo, um aumento de 13,1% em relação a 2021. As profissionais do sexo feminino foram 97% das vítimas neste recorte, na maioria das vezes por causa da cobertura política.

As jornalistas Miriam Leitão, da GloboNews (8 casos), Vera Magalhães, da TV Cultura (8), Daniela Lima, da CNN Brasil (6), e Juliana Dal Piva, do UOL (5), foram as profissionais mais agredidas, segundo o relatório. Vera, por exemplo, durante um debate foi chamada por Bolsonaro de “uma vergonha para o jornalismo”.

Para os responsáveis ​​pela pesquisa, os dados mostram uma tendência das mulheres serem alvos de ameaças e constrangimentos, com uso de ofensas pessoais e misóginas.

A entidade que compilou os dados afirma que a liberdade de imprensa no Brasil foi constantemente ameaçada por atos e discursos antidemocráticos ao longo do último ano e que o cenário político e social polarizado torna o trabalho dos jornalistas no país mais perigoso.

O Brasil ocupa a 110ª posição entre 180 nações no ranking de liberdade de imprensa da ONG Repórteres Sem Fronteiras divulgado em 2022.

Na visão da Abraji, o ano passado marcou a consolidação de um ambiente desfavorável ao jornalismo, que se aprofundou nos anos anteriores, com a tentativa de retratar a imprensa como inimiga no imaginário popular, por meio de narrativas maliciosas sobre fake news e parcialidade.

“Atores políticos e seus apoiadores criam e propagam discursos antimidiáticos que dificultam a atividade jornalística e colocam seus profissionais em constante risco”, afirma o relatório.

A associação cobrou providências das principais plataformas de redes sociais para casos de violência contra a imprensa, lembrando que 63,4% dos ataques estão ligados ao ambiente virtual. A pressão é para que as empresas estabeleçam ações para lidar com os agressores e responsabilizá-los.

Os autores do estudo fazem a ressalva de que a compilação pode apresentar divergências com os números de outras pesquisas, já que outras organizações adotam metodologias diferentes.

JOELMIR TAVARES – SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

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