Impacto do Tarifaço Americano: Exportações do RN para os EUA Caem 57% e Ameaçam Economia Potiguar

O comércio exterior do Rio Grande do Norte enfrenta um dos seus momentos mais desafiadores da história recente. O famoso “tarifaço” imposto pelas políticas comerciais de Donald Trump já cobra um preço alto da economia potiguar. Os dados mais recentes revelam que as exportações do estado para os Estados Unidos despencaram vertiginosamente, acendendo um alerta vermelho para diversos setores produtivos locais. Com uma queda expressiva de 57% no acumulado de janeiro a julho de 2026, empresários e autoridades buscam alternativas e medidas de mitigação para conter a sangria na balança comercial.

Neste artigo, vamos analisar a fundo os números dessa queda, detalhar os setores mais afetados por esse cenário e entender como o governo federal e os produtores potiguares estão se movimentando para redirecionar suas mercadorias e manter a competitividade do Rio Grande do Norte no mercado global.

O Custo do Tarifaço: Uma Queda Drástica nas Exportações do RN

A política protecionista norte-americana, que se intensificou recentemente com a aplicação de sobretaxas a produtos importados, bateu de frente com os interesses comerciais brasileiros, e o Rio Grande do Norte foi um dos estados que sentiu o impacto de forma mais aguda.

Os Números da Balança Comercial Potiguar

Segundo dados oficiais extraídos da base Comex Stat, pertencente ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o tombo nas vendas externas é inegável. Entre janeiro e julho de 2025, o Rio Grande do Norte exportou US$ 73,4 milhões para os Estados Unidos. No mesmo período em 2026, esse valor despencou para modestos US$ 31,7 milhões.

Para se ter uma dimensão do problema, ao longo de todo o ano de 2025, os EUA compraram cerca de US$ 91,3 milhões em produtos potiguares. Mantendo-se a tendência atual, o ano de 2026 dificilmente alcançará a metade desse montante, consolidando o mercado americano como o principal “buraco” na balança comercial do estado nos últimos doze meses.

A Influência das Políticas de Donald Trump

A retração não é obra do acaso, mas reflexo direto do “tarifaço” da administração de Donald Trump. As barreiras alfandegárias e as tarifas punitivas impostas criam um obstáculo gigantesco para a competitividade dos produtos potiguares. O custo de entrada no mercado americano tornou-se proibitivo para muitas empresas, forçando uma reavaliação imediata de rotas comerciais e contratos internacionais.

Produtos e Setores Mais Afetados pela Retração

A pauta de exportação do Rio Grande do Norte é diversificada, o que significa que o impacto do tarifaço se pulverizou por diferentes setores da economia estadual.

O Peso dos Combustíveis e Óleos Minerais

Apesar da crise, o setor de energia e minérios continua liderando os embarques para os EUA, ainda que com volumes reduzidos. Neste ano, combustíveis e óleos minerais somaram US$ 15,2 milhões em vendas. Sendo o estado um polo importante no setor energético e petrolífero (com recentes debates sobre exploração na Margem Equatorial e isenções tributárias regionais), qualquer abalo nas exportações afeta diretamente a arrecadação e os investimentos locais.

Fruticultura, Pescados e a Diversidade da Pauta

Além dos óleos minerais, outros setores de extrema importância social e econômica sofreram o golpe. A lista de produtos afetados engloba pescados e crustáceos (US$ 5,9 milhões), açúcares (US$ 3,2 milhões), sal e gesso (US$ 2,4 milhões) e frutas (US$ 1,5 milhão).

A fruticultura, em especial, é a maior vitrine exportadora do RN. A produção de melões, melancias e outras frutas tropicais gera milhares de empregos no interior do estado. A queda no consumo por parte dos EUA obriga o setor a agir rápido para não perder a produção, que já escoa a todo vapor através do Porto de Natal.

A Resposta do Governo Federal: Medida Provisória nº 1.386 e o Regime de Drawback

Diante da gravidade da situação, o governo federal não ficou inerte. A válvula de escape para os empresários veio em forma de legislação emergencial, buscando dar fôlego a quem foi pego de surpresa pelo tarifaço.

O Que é o Drawback Suspensão e Como Ele Ajuda os Exportadores?

No final de agosto de 2026, foi publicada a Medida Provisória nº 1.386. A MP concede um prazo adicional de até 12 meses para que os exportadores brasileiros prejudicados pelas tarifas americanas cumpram seus compromissos atrelados ao drawback suspensão.

O drawback é um regime aduaneiro que isenta de impostos os insumos (nacionais ou importados) utilizados na fabricação de produtos que serão exportados. A condição para essa isenção é, obviamente, a efetivação da exportação dentro de um prazo legal. Com os portos americanos praticamente “fechados” pelo aumento de tarifas, muitos exportadores corriam o risco de perder o prazo de exportação, o que os obrigaria a recolher todos os tributos suspensos, acrescidos de multas e juros — uma verdadeira sentença de falência para muitas operações.

A nova regra vale para atos concessórios que vencem entre 22 de julho e 31 de dezembro de 2026 e abrange inclusive fabricantes-intermediários, mediante a comprovação do impacto direto das tarifas.

A Integração ao Plano Brasil Soberano 3

Essa Medida Provisória não é uma ação isolada. Ela faz parte do “Plano Brasil Soberano 3”, um pacote estruturado pelo governo federal como resposta contundente às tarifas impostas pelos Estados Unidos. O mecanismo é vital para a economia nacional: apenas em 2025, as empresas que utilizaram o drawback suspensão foram responsáveis por exportar US$ 72,8 bilhões, representando quase 21% de todas as vendas externas do Brasil e envolvendo quase 2.000 companhias. Essa prorrogação concede o tempo necessário para que as empresas potiguares renegociem contratos ou encontrem novos compradores globais.

Alternativas e Novos Caminhos para a Economia do Rio Grande do Norte

Enquanto as portas americanas se estreitam, os produtores do Rio Grande do Norte provam sua resiliência redirecionando seus esforços para outros continentes, minimizando os danos causados pelo tarifaço.

O Redirecionamento para o Mercado Europeu

Se os Estados Unidos fecham as portas, a Europa abre janelas. O redirecionamento das cargas já é uma realidade palpável, especialmente para a fruticultura. O continente europeu, que já possuía forte laço comercial com o RN, consolidou-se como o principal destino da safra recorde de frutas tropicais do estado. Em vez de lutar contra as barreiras intransponíveis das tarifas americanas, os exportadores têm focado em atender às exigentes, porém previsíveis, normas fitossanitárias e de qualidade europeias.

O Papel do Porto de Natal no Escoamento da Produção

O escoamento dessa produção realocada depende diretamente de uma infraestrutura logística eficiente. Nesse cenário, o Porto de Natal ganha ainda mais protagonismo. Operando em ritmo acelerado para embarcar as safras recordes, a estrutura portuária do estado tem sido fundamental para garantir que os produtos cheguem frescos e dentro do prazo ao mercado europeu e a outros destinos que despontam como parceiros alternativos.

Perspectivas para o Futuro: O Que Esperar de 2026 em Diante?

O tarifaço expôs uma vulnerabilidade estrutural de depender excessivamente de uma única potência comercial. A queda de 57% nas vendas para os EUA é um remédio amargo, mas que está forçando a modernização, a diversificação de mercados e a implementação de políticas de proteção mais robustas, como a prorrogação do drawback.

Para o Rio Grande do Norte, o futuro imediato exige cautela e estratégia. A balança comercial sentiu o golpe de perder um mercado que chegou a valer quase US$ 100 milhões anuais para o estado. Contudo, com a força do agronegócio (particularmente a fruticultura), o potencial do setor petrolífero na Margem Equatorial, iniciativas como o Porto-Indústria Verde e o suporte de medidas governamentais assertivas, a economia potiguar tem ferramentas para se reinventar. A palavra de ordem agora é diversificação: encontrar novos mares para que as riquezas do RN continuem chegando a todos os cantos do globo, independentemente de barreiras tarifárias unilaterais.

Sobre o autor: celoo

Jornalista e redator da equipe RN 24 Horas.

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